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Sinfonia da derrota
A bebida me levou à insônia. E a insônia me levou a mais bebida. E essa é a fórmula geral da felicidade que sustêm juntos os laços da realidade.
Ruídos de merda saíam de meus dedos, enlouquecendo. Tudo parecia fazer parte da enorme sinfonia do desconforto. Eu perdera a sanidade, e logo levariam de mim todos os títulos que eu conquistara. Desde a medalha do verme conquistador até o obelisco de marfim.
Elefantes morango-achocolatados invadiam meus pensamentos e eu sabia que era o fim. Meu talento acabara. Queijo Cheddar de Pennis Altíssimus.
A campainha toca e é uma vendedora de escravas brancas. Hoje ela tem em promoção uma menina belga de doze anos que já sabe chupar como gente grande. Eu digo que estou sem dinheiro e fica pra outro dia.
A casa de um escritor é seu espaço impenetrável e incompreensível. A casa violada de um escritor é como um caramujo com a concha encharcada de esperma, inútil e impossível de ser habitada.
A campainha toca novamente e é a síndica. Veio me avisar que eu ando muito recluso e corro o risco de ser expulso do prédio acusado de comportamento anti-social. Eu prometo a ela que dedicarei mais tempo para andar pelo pátio e sorrir para as pessoas. Isso a faz contente e ela me deixa novamente em paz. Na paz de meus tormentos pessoais incessantes.
Fecho os olhos e sonho. O cansaço é tanto ultimamente que não consigo mais o sono interrupto, de forma que ele me assalta em pequenos intervalos ao longo do dia. Sonho com um austríaco barbudo que me convida a atravessar um jardim de pedra. Whadda fock? Pergunto a ele em um inglês polido e ele me explica que me encontrará do outro lado.
Em um minuto ele sumiu e tudo que restou sou eu e as pedras. As imóveis, insípidas e insignificantes pedras, que enfeiam a paisagem. Ainda assim o clima de sombria secura me assusta e eu sei que jamais serei capaz de tocar nas pedras deste jardim. O jardim de pedras. Cada pedra é um seio a ser tocado, uma vulva a ser penetrada.
Me excito com a idéia de encontrar nas pedras algum buraco onde eu possa me enfiar e fuder a pedra até que o sangue brote. Você é um incorrigível, Anacreonte, berra o fantasma do natal futuro. Vai te fuder, eu respondo, eu nem sequer leio Dickens. A voz se cala. Meu Dickens já não pulsa mais ansioso pelas pedras e eu percebo que isto é um trocadilho horroroso. Tudo de muito mal gosto, inclusive o jardim de pedras feito de isopor e gesso. Um cenário falso e grotescamente patético. Meus sonhos têm essa capacidade estonteante de se perverterem em réplicas mal-feitas deles mesmos. Corte de orçamento, é isso, o cérebro está tão esgotado que nem se esforça mais em fazer sonhos decentes.
As pedras começam a desabar e derreter, como isopor na gasolina. Percebo o quanto tudo é mal-feito, a começar pelo princípio. A própria idéia de um jardim de pedras de inalcançável erotismo vem do sobrenome de uma atriz dinamarquesa morta cujo filme assisti de madrugada e me entristeci em saber que jamais tocaria naqueles seios convidativos. Jardim de pedra era o sobrenome dela na bela língua de Hamlet.
A simples tomada de consciência disso criou um pânico no jardim, como se eu pronunciasse em voz alta um terrível segredo que devesse ficar calado. Acordo suando caído no chão da cozinha. Minha cerveja está em pé do meu lado e eu fico feliz por ter conseguido desmaiar sem derrubar a cerveja. Ainda está gelada, de forma que tudo deve ter durado pouco mais que alguns minutos.
Vou em todas as portas e janelas do meu apartamento e verifico se está tudo trancado. Tudo tranqüilo, ninguém entrou enquanto eu estava apagado. É preciso ficar de olho neles, meu caro, minha voz interna diz. Eu sei, respondo. Você está ficando paranóico, meu caro, louco, louco, diz a voz. É... eu sei, respondo. E isso não é nada bom, meu caro, insiste a voz. É... é... eu sei.
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