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A gangue dos malditos tem fome de sangue
Eu era escritor. Ganhava a vida escrevendo e, no tempo livre, pintava quadros de buceta. Ah, e fudia também. Minto.
Na verdade eu era gigolô. Achava uma mulher que me sustentasse e cumpria fielmente minhas prerrogativas matrimoniais para garantir meu sustento. No tempo livre eu escrevia e fazia esculturas de gesso em forma de buceta (ou eram quadros?).
O fato é que por um acaso dois contos meus acabaram sendo publicados e ganhando certo prestígio. Sim, foi isso, esse foi o momento em que passei a ser escritor. Já escrevia há dois anos e estes dois contos compunham solitariamente aquilo que eu chamava de meu ciclo indianista. Chamavam-se "Mulheres, Curare e outros venenos" e "Índios selvagens, freiras sedentas". O primeiro contava a história de um homem perseguido por uma seita secreta indígena que acaba, em sua desesperada busca por refúgio, parando no Bordel da Tia Gina, um local macabro de estranhos ritos femininos, que terminam por desgraçá-lo. O segundo conta a história de um pároco safado que visita um convento e assusta as freiras com histórias de índios ferozes prestes a invadir o local e estuprar a todas, recomendando a elas que tranquem bem o local à noite. Ao despencar a noite um índio, ao ver todas as portas abertas e luzes acesas, entra desavisado no convento, onde logo as freiras começam a despir-se e jogarem-se em êxtase aos seu pés, que desinteressado pega uma fruta de cima da mesa e vai embora.
Na verdade eu era gigolô. Era o que eu sempre fora e sempre seria. Por mais que escrevesse nunca apagaria isso, pelo contrário, por mais que escrevesse mais isso aparecia.
E agora isso, o filme. Era pra ser um filme de horror, mas o diretor queria que tivesse um toque artístico para conseguir apoio dos intelectualóides. Assim me contratara, mais para aparecer meu nome nos letreiros finais do que para trabalhar. Mas alguma coisa eu precisava fazer.
Comprei uma boina, afinal eles esperavam um artista e isso ajudaria a consolidar minha imagem de pintor. Sim, eu era pintor, passava longas tardes no centro da cidade expondo meus quadros que ninguém comprava. No tempo livre eu escrevia e fudia. Assim que comecei a usar a boina senti que ela já exercia seu efeito sobre mim. Eu ficara mais inteligente e entendia melhor a arte. Tudo ficara mais óbvio. As filmagens começariam a meia-noite e eu deveria me apresentar às dez. Seria assim todos os dias até terminarmos o filme, o diretor disse que isso ajudaria na publicidade. Como não tinha nada para fazer fui prum bar.
Eu era um bêbado. Ganhava a vida passando as noites no bar e fazendo coisas vexaminosas para divertir os outros. Quando a noite era boa eu conseguia que me pagassem as bebidas e ainda voltava com uns trocados no bolso. Durante o dia, no tempo livre, fudia com meus quadros e desenhava minha esposa. Comecei a beber e a noite estava boa. Botava o cabelo na cara e virava copos de bebida, truque que possuía grande popularidade. Avistei um cara que parecia cheio da grana e comecei a incomodá-lo. "Sou cineasta, sabia?", "é mesmo?", "an-ran, estou trabalhando num filme que vai simplesmente revolucionar o conceito de cinema no país. O título ia ser 'sedentos de sangue', mas graças a mim o título será bem melhor e usaremos sangue coagulado que os atores comerão, evitando assim esse clichê da sede de sangue". Consegui sete cervejas e uma dose de uísque daquele cara. Depois de dizer que ele era meu melhor amigo fui pra casa pra tentar me esconder do sol que nascia.
Me ligaram de amanhã. Como eu não aparecera no primeiro dia da filmagem o diretor me despedira e contratara outro artista, o qual ele já vinha cogitando se não seria melhor que eu. Que foda ele. Que se foda o filme. Se fodam todos. Eu era um escritor. Nas horas vagas esculpia fodas e engessava quadros. Um dia todas as crianças leriam meus contos e eles se arrependeriam por não terem me aceitado no filme.
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