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Sangue suor e porra
Chega um momento em que o sujeito
simplesmente precisa. Aquele
amontoado de porra no meio das pernas
procurando alívio e libertação. Sílvia costumava a ser nossa solução.
Sílvia era morena, quanto ao cabelo, e pele super branca.
Tinha um pouco mais que um e sessenta e costumava a meter a boca no
troço da galera. Era um alívio e dèja vu misturados. Quem na
vizinhança já não se acostumara com a visão da face esporrada de
Sílvia.
No entanto era virgem.
Era virgem, e como tal gozava (ops) de um status único no
bairro, era A VIRGEM do bairro. Algumas gurias morriam de inveja.
Outras a imitavam. E a maioria dos rapazes se esmerava em ser o
primeiro a rasgar a pelezinha de Sílvia.
O olhar era malicioso. Não havia punheta que fosse possível de
um adolescente resistir. A boca era sedenta, como uma fonte
escorregadia e quente que nunca seca. Não era à toa que era a boca
mais disputada do bairro. Todo rapaz tinha seu ritual de iniciação aos
trezes anos, uma chupada da Sílvia.
Um dia veio a notícia. De súbito como uma esporrada, Sílvia
morrera. Um luto percorreu a cidade, pois Sílvia, a essa altura já com
vinte e um anos, havia caído de boca na população masculina inteira.
Mais ainda, para aumentar a tristeza da ocasião morrera virgem, a
buceta inviolada tal e qual viera ao mundo, embora alguns afirmassem
maldosamente que ao vê-la nua, Zizinho, o preparador de defunto da
funerária, não havia conseguido resistir e furara postumamente a
bucetinha inchada pelas gangrenas da morte. Mas isso era somente
especulação, e embora Zizinho tenha sido visto bebendo de alegria
naquela noite até desmaiar, como quem celebra uma secreta comemoração,
nenhum fato além veio a confirmar isso, tampouco alguém ousou examinar
a integridade do cadáver durante o velório.
O fato é que ninguém se conformava com a situação. Eu gastava
meus dias inteiros pensando naquela buceta, naquela boca, naquelas
mãos habilidosas. Não conseguia mais trabalhar, estudar, ler, pensar.
Por um mês inteiro a lembrança dela me atormentou. Por fim me decidi,
precisava revê-la. Uma vez mais que fosse, mas precisava despedir-me.
Despedir-me à altura daquilo que ela fora. Precisava não somente rever
seu cadáver, mas sim fazê-lo de noite, de forma oculta, secreta. De
modo que eu pudesse dar a ela toda minha homenagem.
Itacorubi significava pedra alguma coisa em alguma língua de
índio. E nos muros daquele cemitério, cemitério municipal do
Itacorubi, subi com dedicação e respiração ofegante, ávido para
aliviar uma derradeira vez meus instintos hormonais. A testosterona em
alta me dava força e agilidade fora do comum, sentia-me possuído,
obstinado, portador da lança sagrada em busca de um fim para sua
missão, um lugar onde pudesse enterrá-la para sempre.
Pulei os muros e me esquivei entre as tumbas, velhas,
quebradas e mal-cuidadas. Dificilmente haveria algum vigia por ali ou
qualquer movimento, mas todo cuidado era pouco. O que eu estava para
fazer era o impensável, indizível, inconfessável. Se alguém mais
soubesse daquilo eu seria motivo de chacota na cidade toda, ou preso,
ou enrabado pelo delegado.
Ou não.
Cheguei finalmente perto do túmulo de Sílvia quando notei
aquela estranha procissão. Um grupo de homens andava continuamente ao
redor de seu túmulo e, na porta do jazigo enorme, uma fila de homens
se amontoava, cada um à espera de sua vez. Até a prefeita do município
lá estava, pois era também acostumada à famosa língua rápida de
Sílvia. Políticos, burguesia, proletariado, todos se enfileiravam e se
misturavam ordenadamente, esperando ansiosamente pelos dez minutos de
gozo com o cadáver. Todo meu plano, todos os preparativos, tudo em
vão. Praticamente toda a população masculina e parte da feminina
estava lá, até o delegado, e sabe-se lá desde quando se revezavam a
noite toda deixando cada qual sua cota de porra no cadáver. Um garoto
gordo de doze anos distribuía senha para as pessoas na fila.
Resignado, peguei meu número e aguardei na fila, até que enfim chegou
minha vez.
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