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Brincadeira de criança
Era a brincadeira favorita no colégio, um
abria as pernas até que cada pé encostasse em um lado da parede
do corredor, outra criança jogava a maçã pelo meio da pernas e uma
terceira ficava do outro lado.
Se essa conseguisse apanhar a maçã sem que
ela caísse no chão, então
podia comê-la. O nome da brincadeira era
abre-as-pernas-que-eu-como, e
logo se tornou popular entre os adolescentes, principalmente jovens
casais, que sempre buscavam mais alguém para ajudar na brincadeira.
Com o tempo, a direção proibiu tal diversão. Todo o tipo de
boatos e rumores circularam e finalmente o folguedo caiu na
clandestinidade. Só a galera mais barra pesada se atrevia a tal coisa.
A pena para quem fosse pego bebendo ou fumando no colégio era uma
semana de suspensão, enquanto a prática do abre-as-pernas-que-eu-como
era punida com expulsão.
Um dia me aconteceu o que todo estudante sonhava. Fui
convidado a entrar em um destes grupos secretos. O ânimo inicial foi
diluindo aos poucos quando, através de algum trabalho investigativo,
descobri que era um grupo seleto demais, só aceitava homens. Ora, qual
a graça de praticarmos abre-as-pernas-que-eu-como sem a vital presença
feminina? Pois justamente os homens temiam o papel de ficar no meio
para evitar que o arremesso da fruta levasse a algum acidente
doloroso, portanto sobrava sempre para as mulheres. O que não era a
graça de uma calça de malha, colada ao corpo, se enterrando atrás e
revelando na frente o suave relevo da púbis feminina adolescente?
Quando se fixava por demais os olhos no meio da pernas femininas, o
que acontecia nos momentos que antecediam o arremesso, quase se podia
sentir o aroma que dali fluía. E ademais, as mulheres raramente
reclamavam por serem elas que ficavam no papel de abrir as pernas,
enquanto os meninos sempre achavam dolorido e perigoso.
Foi com uma grande lástima que tive que recusar o convite.
Algo me dizia que não seria boa idéia participar daquele grupo. Com o
tempo comecei a notar que o esforço excessivo que a brincadeira
causava nos ligamentos da perna fazia com que os praticantes do
esporte andassem de um jeito meio diferente. A coisa ficava
assustadora e boatos rolavam sobre novos incrementos que o jogo
sofrera desde que entrara na clandestinidade.
Um dia meti-me num vão da escada e lá me escondi durante o
intervalo. Bastou os fiscais de corredor passarem e logo veio um grupo
de praticantes. Eram quatro ou cinco caras e Sabrina. Sabrina era uma
menina de séries mais avançadas, o sonho de todo menino de colégio. E
lá estava ela, com todo o corpo e beleza que só lhe durariam alguns
anos, até morrer emplastado de gorduras e celulites na maioridade. Ali
ela ainda era linda.
Comecei a tremer escondido. Os garotos que estavam sobrando
abriram uma roda ao redor e Sabrina começou a abrir as pernas. Eu
simplesmente mal podia acreditar, era o momento mais feliz da minha
vida poder ver aquilo, como queria ser eu que estivesse lá brincando
com ela de abre-as-pernas-que-eu-como. O jogo foi rápido, ambos os
jogadores trocaram laces furiosos de arremessos da maçã que passava
roçando pelas pernas de Sabrina. Até que um deles finalmente conseguiu
agarrar a salvo o arremesso do adversário. E assim ganhou o direito de
comer. Como eu queria ser aquele felizardo.
Aquela cena me acompanhou para o resto da vida escolar. Nunca
mais tive a chance de ingressar num grupo daqueles. A repressão da
direção ao jogo foi ficando cada vez mais pesada, chagando ao ponto de
câmeras vigiarem os corredores. No último ano do colégio eu já me
conformava. Chegavam de fora os boatos de que o jogo era permitido nas
universidades e que lá alcançara sofisticações nunca pensadas no
colégio, eu precisava chegar lá. E foi assim que minha vocação para a
ciência surgiu.
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