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Noites sombrias
Era preciso alguma dor para se escrever algo naqueles dias, mas às
vezes se exagerava. A primeira coisa que vi quando entrei no bar foi o
velho Carlos, bêbado, com as barbas dentro do caneco vazio de chope.
Sentei do lado dele em silêncio e o observei enquanto ele começava
a chorar. Por quanto tempo mais isso continuaria assim? Pedi um caneco ao
dono que me avisou que estava fechando, que aquele era o último que ele servia.
Bebi em silêncio enquanto o velho continuava com seu choro, agora
suavizado para um balbuciar choramingante infantil. Bebi o mais devagar que
pude, mas mesmo assim já o esvaziara, e tentei cantar velhas canções
socialistas para animar o velho. Nada.
Ficamos novamente em silêncio. Eu parara com a cantoria, o velho
com o choro, e o dono do bar com as bebidas. Pagamos a conta e viemos
embora em silêncio e caminhando devagar, pois ele já não tinha mais o vigor
de outrora, quando emborcava todas e corria bêbado e desnudo pelas ruelas
da cidade. Minha cidade, que com o passar dos anos vira seus prédios
passarem de colorido para cinza.
Enquanto ele subia as escadas da entrada do seu prédio, praguejou
contra o governo, falou algo em traição de classe, reclamou que as mulheres
estavam ficando sem bunda e por fim, confessou que estava morrendo.
Era todo dia a mesma coisa. Quem o via durante o dia ativo não o
reconheceria depois das quatro da manhã quando chagava em casa bêbado e
choramingando. O câncer o corroía por dentro, e não havia nada que pudesse
ser feito. E todo dia ele me repetia essa mesma história. E todo dia eu
ouvia calado e ao fim tentava animá-lo. Ia para casa e lavava o rosto para
me livrar dos ciscos que caíam na vista ao ponto de me deixarem lacrimejando.
Naquele dia ele parou a história no meio e me olhou com seriedade
e disse: "você vai me substituir, você sabe disso, não?". "Espero que não".
"Ah, vai, sim. Guarde o que eu disse". E como quem tinha acabado de rogar
uma praga se virou e continuou a subir sozinho.
Fui pra casa sem pressa. Irritado demais com a falta de bebida no
sangue e com o fardo que eu mesmo me arranjara. Porque começara a ajudar
aquele velho fudido, se nem minha vida eu conseguia dar um jeito? E por que
ele lançava em mim sua maldição carregada pela teia e o mofo dos anos que
ele vivera. Ele vira as duas grandes guerras. Ele lembrava dos fogos de
artifício comemorando a passagem do século 19 pro vinte. Ele vira surgir o
bonde, a luz elétrica, o rádio, a tevê, o computador, o videogame, o LSD,
o jazz, o rock, mas isso eram histórias que não interessavam a mais ninguém.
Acho que todos estavam preocupados demais com o futuro, e acho que
razões não faltavam para isso. Eu, que sempre me achara pessimista, cada
vez me surpreendia mais com a merda em que o mundo estava. Principalmente
no canto em que vivíamos, pois nunca se é pessimista o suficiente quando se
vive no terceiro mundo, algo pior sempre vai acontecer.
Cheguei finalmente à minha casa e estremeci quando botei a chave
na fechadura e reconheci, no ar gélido da madrugada, que o que ele dissera
era verdade: em breve ele estaria morto e eu tomaria o lugar dele,
choramingando bêbado nas mesas dos bares de madrugada, velho e com uma
barba esbranquiçada de molho no caneco. Um cisco voltou a cair no meu olho
e sequei apressadamente a lágrima que caía, olhando em volta para ver se
era observado. Entrei em casa lavei o rosto e fui dormir. Lá fora uns
passarinhos já começavam a cantar e incomodar e ainda pensei que talvez
pudesse evitar, mudar o rumo das coisas. "Amanhã talvez eu não vá no bar",
menti pra mim mesmo antes de finalmente apagar.
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