----->contos do fonjic<-----
2005
2004
2003
2002
2001
2000
1999
1994 a 1998

bunda suja se raspa em casa

Eu estava um caco. A porra do inverno começava a chegar e isso queria dizer que eu não teria mais coragem de sair da cama de manhã ou de tarde ou de noite ou sair de casa ou fazer porra alguma que não fosse choramingar pelos cantos reclamando do frio.

Puta que pariu. Eu não escrevia nada decente há tempos e cada vez mais me convencia que isso era um presente que eu dava à humanidade. O mundo seria um lugar melhor de forma inversamente proporcional ao número de escritores nele. E a pior parte de tudo: já não havia mais dinheiro para beber todos os dias, nem força de vontade suficiente para que me interessasse por trabalho. Que desgraça, desde criança sempre quis me aposentar e nunca pretendi ter vocação para os estudos ou trabalho, não sei como acabei caindo nessa desgraça por tanto tempo, atraído talvez pelo canto da sereia de minha própria vaidade que me queria ver como doutor de qualquer porra.

Decididamente não era vida para mim, e a causa do embotamento que me assolava devia residir justamente ali. Eu lia todos os livros que me passavam a frente, mas percebia que não havia mais literatura a venda, apenas livros, objetos de consumo que se compra antes de conhecer na íntegra seu conteúdo, logo avalia-se a compra apenas pela forma e o nome do autor. Não é de admirar que houvessem tão poucos compradores. Mais vale locar um filme, afinal todos sabem como eles acabam: da mesma forma como todos os filmes acabam. Provavelmente com alguma criança idiota sorrindo enquanto uma bandeira americana sacode no fundo da cena.

Cheguei a culpar minha ausência de pesadelos pelo desastre criativo que me assolava. Mas eles voltaram, meu talento não. Até meus sonhos andavam desimaginativos e sem graça. Tentei culpar a tevê, os estudos, a monogamia, a preguiça, o estresse, a azia e até mesmo o fechamento de meu bar amigo que por tantas noites me acolhera na lagoa. Eu virara um estrangeiro em minha cidade, não tinha mais onde ir.

O mundo cambiava de formas e no meio da incerteza não haviam mais heróis. Apenas um restava, Waldecir, o eterno garçom, com sua eterna calça preta e camisa branca, servindo goles de eternidade gelada no verão.

Mas o verão se findara e o inverno chegava e minha casa ficava tão fria que nem masturbação era possível, a não ser mental. Fechava os olhos e ficava tentando rememorar todas as playmates desde que Marilyn tirara a roupa na primeira edição. O sentido só era possível entre as pernas de uma dama, e embora essa seja uma verdade de fácil compreensão para qualquer adolescente, não garantia sua facilidade no futuro.

Vovó uma vez perguntou "o que você quer ser quando crescer, meu querido?", "gigolô, vovó", eu pensei, mas nem sabia ao certo o que isso queria dizer, apenas gostava do som da palavra e intuía pelos adultos que devia ser algo bom. Na falta de ter o que responder eu sempre repetia os lugares comuns para que não suspeitassem que eu não era uma criança normal. Bombeiro, médico, engenheiro, advogado, até que um dia enchi o saco e falei que meu sonho era ser lixeiro, no que fui considerado muito hilário pelos familiares.

Mas que porra, nem sequer pra lixeiro eu servia, como podia constatar pela flacidez dos meus músculos e suavidade das mãos. São mãos de viado, mãos de escritor, em calos ou rugas. Mãos que denunciam falta de atividade, tão diferentes da mão de um trabalhador braçal ou pianista. São mãos de quem só as usa para coçar o saco, tirar pequenas pedrinhas do nariz e raspar a caspa. Ah, sim, e cera do ouvido, cera do ouvido era uma coisa importante para também ser retirada.

Outro dia um fã me mandou uma carta dizendo que minha obra estava ficando muito escatológica e corporal, só o que fazia era falar de odores e excreções expelidas pelo meu corpo. Era o que acontecia quando se ficava tempo demais isolado consigo mesmo, respondi, questões de higiene pessoal se tornam complicadas equações. Só hoje compreendo, lentamente, foi aí que perdi meu último fã. O único, talvez, ao menos que eu saiba...


--------------x--------------

Nome:

E-Mail:

Nome do Conto:

Mensagem: