----->contos do fonjic<-----
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Bocetões e Bebida fazem o mundo girar

De todas as sensações frustrantes no mundo uma é pior: a constatação de se chegar em casa e não ter bebida. Qualquer coisa, qualquer morte é preferível a isso.

Todo dia, depois do trabalho, Elenice vinha me ver. Trazia sempre vinho, ou alguma outra bebida barata, porque sabia que nas minhas cervejinhas eu não deixava que ninguém tocasse. Lindas, perfumadas, geladas. Eu tinha vinte e cinco anos, nenhum emprego, mas a geladeira que eu sempre desejara ter: dourada de cervejas.

Um dia Elenice veio. Eu estava bêbado, já era umas cinco horas das tarde. Tomamos uma cidra de um pila e farreamos. Em cima da mesa, desenhos infantis de bocetões, que eu estava tentando aprender a desenhar. Ela tinha ciúmes dos meus bocetões, mas eu explicava que era bobagem, que aquilo era arte, que um dia eu pintaria bocetões tão belos que nos tornariam ricos. A menção do dinheiro parecia convencê-la que eu a amava, e tudo ficava bem de novo.

Lá pelas dez da noite, cansávamos de ficar trancados em casa e íamos pra rua. Nesse horário nem podíamos farrear em casa que os vizinhos reclamavam.

Eram duas horas quando voltei. Elenice havia bebido demais e voltado vomitando pra casa. Eu estava sozinho de novo, mas tinha minha cerveja. Cerveja, a matéria essencial do Universo. Algumas boas cervejas e pronto, a garantia de uma noite alegre e sono tranqüilo. O que não era o caso dessa noite, quando abri a geladeira e me deparei com ela vazia.

Vazia. Havia bebido tudo de tarde e nem lembrava. Eram duas da manhã, e minha casa estava seca, sem uma gota de álcool. Isso significava mais uma noite de angústia e depressão, insônia, pesadelos que me deixavam nunca dormir.

Me senti mais frustrado do que cem broxadas. A essa altura da vida, podia suportar qualquer coisa, qualquer, exceto uma noite sóbrio.

Apaguei a luz atrás de mim e fechei a porta. Eu precisava de um bar. Embora não fosse fácil encontrar um bar aberto a essa hora no inverno. O mercado 24 horas ficava a cinco quilômetros, o que dava uma hora caminhando. Havia um bar novo no bairro a dois quilômetros, mas na direção oposta ao mercado. Resolvi arriscar assim mesmo. Qualquer coisa era melhor do que ficar parado esperando a sobriedade chegar.

Olhei pro pulso. Durante dez anos da minha vida eu não tivera relógio. Acabara de comprar um, mas o maldito veio com a bateria fraca, fazendo com que o ponteiro dos segundo chegasse no doze e ficasse lá travado, fibrilando, tentando saltar aquela barreira incomensurável. Dez anos sem relógio. Dez putos anos, pra comprar essa droga que não funcionava. Eu sentia a sobriedade chegando, rastejando dentro de mim como um demônio, me sussurrando idéias, me fazendo ver o quão podre e odiável era aquele mundo que me cercava. A voz sóbria que rastejava em mim me dizia: quebre o maldito relógio! Estore o vidro dele numa pedra e o afunde no mar depois!

Eu precisava me apressar. A voz dentro de mim ficava mais forte e com ódio eu olhava pras casas silentes que dormiam de olhos abertos, me espionando, me filmando com suas câmeras de vigilância.

Um cachorro começou a latir. No portão babava e exibia os dentes espumosos, a desafiar-me. Passavam das duas horas, eu ficava sóbrio e tudo me empurrava para uma luta de morte com aquela besta que me desafiava. Lutaríamos até a morte, até que um bebesse o sangue do oponente caído à luz do luar. "Fuja pras colinas", me dizia a música que tocava em minha cabeça, "corra por sua vida".

Na virada da curva, uma placa amarela com luz acesa. O bar estava aberto, por sorte ou azar. Eu via a bebida me chamando, e quem obstruísse meu caminho agora estava fadado a morte. Olhei meu relógio, ainda a mesma hora, ainda o mesmo ponteiro fibrilando, como um gago que não consegue ejacular. Arranquei do pulso arrebentado a pulseira e chutei-o pra longe. O bar estava perto e eu caminhava rumo à liberdade agora. Envoltas numa bruma de vapor gelado, as cervejas me esperavam.

Entrei. Fui ao balcão e disse "Uma cerveja!". O cara do balcão me olhou com visível má vontade e desprezo e repeti, dessa vez mais alto e com um ódio crescente no olhar "UMA CERVEJA!"

O cara pareceu se mover. Ainda me encarou uns segundos, mas por fim baixou a cabeça e trouxe a cerveja. Virei-a direto, sentindo novamente a alma gelada do álcool se aninhar em meu corpo. Pedi outra. Depois outra. Quando estava na metade da terceira, comecei a sentir-me bem novamente, a baixar a guarda. Olhei ao redor. Nas mesas do bar, três casais me olhavam, com ódio pulsante no olhar. Na porta, um cara gordo me encara. Eram todos humanos, e eu os desprezava todos. Sentia na nuca o olhar do cara do balcõa, pronto a abater-me pelas costas.

--- Seus filhos da puta!!! Seus filhos duma grande puta!!! Quem vai ser o primeiro? Quem quer morrer? Vamos lá!!!

E continuei gritando assim, sacudindo para eles os dois pedaços de madeira que restaram na minha mão depois de estourar uma cadeira na mesa à minha frente. Pareceram se encolher de medo, mudarem de idéia. Agora eles sabiam que eu era alguém.

--- Eu sou alguém, sabiam? Eu sou alguém! Sou Anacreonte Fonjic, pintor de bucetas. E um dia minhas bucetas serão tão belas que estarão forrando todas as paredes de muros, casas e prédios dessa cidade.

Virei de novo pro balconista, pedi quatro latinhas pra levar e paguei. Perto do bar achei um terreno abandonado, onde me sentei no meio do mato, abri as latinhas e, por fim, apaguei.

Acordei com o sol me derretendo e as formigas tentando, em vão, me arrastar pro seu formigueiro. Devia ser umas sete da manhã. Levantei e comecei a caminhar pra casa. Tudo havia terminado bem afinal. Passei pela frente do bar, agora fechado e comecei a sentir culpa e agonia pelas ameaças que lhes havia feito. Eles até que não foram tão mal assim, eram apenas humanos, nada mais, pobres e assustadas criaturas humanas. Eu precisava me desculpar. eu fora rude e precisava agora me desculpar. Fui até a porta do bar e desenhei o mais belo bocetão que já fiz na vida, usando para isso meu próprio mijo, a essência de meu ser que se esvaía agora depois de uma noite muito longa.

Olhei mais uma vez o bocetão, com lágrimas de alegria nos olhos, por ser capaz de criar algo tão belo, como um deus, e fui pra casa. Fora uma longa noite e eu precisava descansar para acordar antes da chegada de Elenice e comprar umas cervejinhas mais.


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