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Memórias Póstumas de Brás Cubas CAPÍTULO XXXV / O CAMINHO DE DAMASCO ORA ACONTECEU, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da Escritura (Ar. IX, 7): "Levanta-te, e entra na cidade." Essa voz saía de mim mesmo, e tinha duas origens a piedade, que me desarmava ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar deveras, e desposá-la. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não há duvidar que ela o achou e mo disse. Foi na varanda, na tarde de uma segunda-feira, ao anunciar-lhe que na seguinte manhã viria para baixo. -- Adeus, suspirou ela estendendo-me a mão com simplicidade; faz bem -- E como eu nada dissesse, continuou: -- Faz bem em fugir ao ridículo de casar comigo. Ia dizer-lhe que não; ela retirou-se lentamente, engolindo as lágrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por todos os santos do Céu que eu era obrigado a descer, mas que não deixava de lhe querer e muito; tudo hipérboles frias, que ela escutou sem dizer nada. -- Acredita-me? perguntei eu no fim. -- Não, e digo-lhe que faz bem. Quis retê-la, mas o olhar que me lançou não foi já de súplica, senão de império. Desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito. Vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pai, que era conveniente abraçar a carreira política... que a constituição... que a minha noiva... que o meu cavalo... Anterior - Próximo |